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título:   A  C  D  E  F  H  M  N  O  P  R  S  autor:   A  B  C  D  F  L  M  N  O  P  R  S  T 
 
     

 

gênero: ficção
páginas: 184
formato: -x-
ISBN: 978-85-62381-31-7


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O incrível testamento de Dom Agápito

Hélder Moura

 
  R$ 30.00
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Romance de costumes, inédito no Brasil. O personagem principal, já falecido na primeira página da ficção, está sempre presente ao longo do livro e, muito embora o autor chame a atenção para o inverossímil da trama, o leitor é desde logo convidado a prosseguir na leitura porque as palavras escritas acontecem simples e no lugar onde devem estar. Este romance não é apenas uma história, são muitas. Dom Agápito caminha pelas páginas revisitando todas as suas mulheres, e estas se desnudam em testemunhos que revelam um passado oculto entre todos. O seu romance, apesar da atmosfera, é um mundo atual e um mundo de sempre, pois está condimentado com a realidade de todos os dias; as notícias da imprensa, os ditos e desditos, a injúria, a inveja, a política maltrapilha, a ignorância, a ambição, a intriga, os antagonismos religiosos... E o leitor, satisfeito, saberá que os prazeres vividos por parte da população de Óbidos têm seu preço finalmente revelado".


CONVIVÊNCIA CRÍTICA
Hildeberto Barbosa Filho
Hélder Moura e seu romance de estreia

O verbo testar, na ciência do direito, significa estabelecer a última vontade daquele que morre em relação a seus bens. Daí o termo testamento, instituto jurídico que integra um dos capítulos essenciais às normas de sucessão. Em si, o testamento já se impõe como um dispositivo que canaliza a surpresa, o interesse e a curiosidade daqueles que estão vinculados a seus desígnios, abrindo, assim, possibilidades inesperadas para as ações e os personagens envolvidos em sua trama.

O romance de estreia do jornalista Hélder Moura, "O incrível testamento de Dom Agápito", em segunda edição (São Paulo: Miró, 2014), tem, como ponto de partida de sua movimentada fabulação, a inscrição desse documento enquanto peça fundamental que, ao mesmo tempo, une e distende o destino dos múltiplos personagens. A suposta herança deixada pelo testador deve ser repartida, conforme o último desejo do falecido, por todos, homens e mulheres, que se apresentarem à abertura do documento, dando testemunho de suas relações íntimas com o "de cujus". É dessas relações e seus desdobramentos, suas peripécias e seus conflitos, seus deslocamentos e condensações, seus episódios verossímeis e suas ocorrências insólitas, que o narrador, culto, distanciado, onisciente e dialógico, vai tecendo os fios do enredo e, sempre que oportuno, refletindo acerca dos predicados internos do próprio processo narrativo. Duas dimensões do discurso literário, portanto, se entrelaçam, na medida do tempo cronológico e do espaço paisagístico da narrativa, ou seja: o registro da linguagem, em que a palavra erudita do narrador não descarta os reclamos da tradição oral e popular, e o elemento especulativo da metalinguagem, soldando a energia crítica e a consciência estética que presidem o modelo narrativo utilizado.

Se o testamento revela e releva a presença viva do ausente, Dom Agápito, que morre logo nas primeiras páginas do romance, muito embora funcione como elo dramático entre todos os outros personagens, traz, não obstante, a senha que escancara as contradições, as fragilidades, as mesquinharias, os ressentimentos, as invejas, as ambições, enfim, a hipocrisia que imperam no corpo social da imaginária cidade de Óbidos, antiga Convento.

Mary Del Priore, em contracapa do exemplar, refere-se ao "sistema de bonecas russas e histórias encaixadas", que, se imprimem, por um lado, um ritmo novelesco de tradição folhetinesca, rico em situações surpreendentes e desfechos absurdos, convoca, por outro, o elenco variado de tipos e personas que reflete, cada um em seu microcosmo existencial, a face ambivalente do grupo social a que pertence.

As falas dos que testemunham, ao mesmo tempo em que desnudam a precariedade subjetiva da condição humana, seus orifícios e lacunas morais e afetivos, como que se constroem enquanto sátira contra o tecido social, desvestindo as convenções, as aparências, os falsos valores, alcançando, aqui, a narrativa, aquele grau de abstração que transcende as marcas do espaço e do tempo.

A considerarmos o anti-heroísmo que fomenta o ethos do protagonista, Dom Agápito, que amealhou fortuna não se sabe como, assim como de todos os personagens, em especial, o Juiz Praxedes, Dona Graciosa, a Cafetina Fia, o Diretor Aparício, o Delegado Alferes, o Vigário Alfonso, e, noutro sentido, a posição crítica do narrador, tudo nos leva a ver que se materializa, no romance de Hélder Moura, uma formulação moderna da tradição picaresca, cuja origem remonta ao século XVI e XVII na Espanha.

Mario González, atento ao caráter intertextual da novela picaresca, defende a ideia de que seu núcleo reside na "autobiografia de um anti-herói que aparece definido como marginal à sociedade; a narração das suas aventuras é a síntese crítica do processo de tentativa de ascensão social pela trapaça; e nessa narração é traçada uma sátira da sociedade contemporânea do pícaro" (O romance picaresco: São Paulo: Ática, 1988). Ora, tais ingredientes comparecem à trama novelesca da obra comentada, distribuídos em nível razoável de proporção formal e técnica. O estilo também contribui para reforçar esta lógica classificatória, levados em conta, sobretudo, a habilidade no trato dos vocábulos, o sabor picante de certas frases, a carnalidade sensual de certas passagens e o fulgor empático que se manifesta na larga apropriação do repertório oral. O tom paródico de alguns parágrafos e a estratégia de estilização de outros como que robustecem, no trapacear intrínseco das linguagens, a trapaça histórica, social e ideológica que mobiliza o conteúdo.

A singularidade da estória contada e contextualizada em seus aspectos particulares ganha, por isso mesmo, isto é, pela força peculiar de sua possibilidade de abstração enquanto material artístico, foros de universalidade. O que, de resto, é exigência inadiável de qualquer obra de arte.

Por isto, posso dizer que "O incrível testamento de Dom Agápito", em sendo a sua estória, em sendo a estória de Óbidos, é também, e, talvez, principalmente, a estória de cada um. De cada um de nós, nem sempre capaz de fugir aos apelos viciosos dos instintos, da cobiça, da inveja, da maldade e da mentira. Daí sua força comunicativa, se olharmos seus artefatos retóricos, estilísticos, técnico-literários, e sua atualidade, se pensarmos na pertinência de seu espectro temático e ideológico. Para quem estreia, não é nada pouco.



"Li de um só fôlego as aventuras de Dom Agápito. O sistema de ‘bonecas russas' e histórias encaixadas não me deixou respirar. Linguagem? Saborosa e musical. Hélder Moura trouxe de volta os heróis pícaros do Renascimento ibérico e francês num cenário fantástico, onde óbito e Óbidos se confundem, fazendo rir, viajar e pensar. Bravo, bravíssimo!" (Mary Del Priori)


"Como cabe ao bom ficcionista, Helder Moura, através de mentiras bem urdidas, começa por nos induzir a crer que vai contar uma história ‘de época', romanceando episódios escandalosos e burlescos da história de Portugal, para logo, porém, transportar-nos, junto com um misterioso Dom Agápito, uma nova Óbidos tropical - que tampouco é aquela estabelecida às margens do rio Amazonas - e um incongruente castelo mouro, para algum ponto, de início num vago tempo e impreciso espaço, de um Brasil em que se desenrolam acontecimentos tão burlescos como aqueles.  A partir daí, desenvolve e nos envolve em um ou sucessivos enredos, no pleno sentido da palavra, de intrigas e reviravoltas, espertezas e comicidade, no melhor estilo farsesco que o filia a uma longa linhagem literária, imigrada também do outro lado do Atlântico, há séculos, e ainda viva no Nordeste brasileiro, seja na sua versão popular, dos folhetos de cordel, dos mamulengos e outros folguedos, seja na versão erudita de um Ariano Suassuna, por exemplo. Pouco a pouco, esparsas indicações, como uma surpreendente referência à NASA, e comportamentos que afinal reconhecemos como muito familiares nos vão trazendo para o aqui e agora, e vê-se claro que essa história, aparentemente fantasiosa, denuncia nossas seculares mazelas com as quais estamos tentando, a duras penas, acertar as contas. Como os herdeiros de Dom Agápito, chegamos à última página arcando com imensas dívidas ainda por pagar." (Maria Valéria Rezende)

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